A escrita-flor
Entre 2020 e 2021, para desviar um pouco da tristeza que me rodeava (a mim e ao mundo), participei de uma oficina de escrita livre. Afinal, eu estava presa em casa, mas a escrita poderia me levar além. Hoje, deixo registrado aqui um dos textos que escrevi à época. Mas cabe o aviso: ele não passou por revisão ou leitura crítica. Está cru e real.
Amaranta
em meio a este arremedo de vida, hoje descobri, nas profundezas da Amazônia, uma flor. de imediato, saquei o celular do bolso para tentar encontrar que nome davam a ela. amaranta foi o nome escolhido. entendo a primeira metade do nome. achei coerente e muito prudente, pois carregava algo de dor e beleza, tal qual o amar. logo após refletir sobre o epíteto, sinto seu perfume emergir forte. um bálsamo que chega de mansinho, como visita que a gente espera por meses após um isolamento penoso. ou o café que aguardamos ansiosas para curar a ressaca do sono ou de um dia pesado. ou ainda daquela vontade de chegar em casa e respirar e ser.
amaranta nascia às 5 da madrugada, ainda noite, mas logo sua beleza seria alcançada pelos pontos do sol. generoso, este lhe dedicava a melhor luz. meio bloqueada pelos troncos das árvores e outras folhas, a luz chegava na flor sem muita intensidade. como um cumprimento tímido e vertido de bondade. essas nuances de claridade e energia potencializam sua beleza. as pétalas ondulam e contorcem-se como para servir de berço à luminosidade regalada. seus tons quase cristalinos fazem a luz atravessar a materialidade que é flor e bater no chão, o que, veja bem, faz com que a luz volte outra vez às pétalas e lhes confira uma iluminação de réveillon de copacabana, à meia-noite em ponto. mas seu porte vigoroso não se encerrava aí.
quase não pude enxergar o fim de seu caule, de tantas folhas que lhe rondavam e lhe saíam. e brilhava, brilhava e se iluminava com o vento que batia e que a fazia rodar por toda sua extensão. para frente. para trás. para os lados. e descia, subia e rodopiava. era assim, a floresta era seu palco. eu, extasiada, a única espectadora. saquei o celular do bolso mais uma vez. agora - como deveria ter sido desde o início -, para filmá-la. tudo ao meu redor havia desaparecido. minha visão estava turva, mas com foco nela. a primeira luz que vi após todos esses meses foi a dela. a luz era dela. o ar e o vento também. e eu, eu também. amaranta me tinha. e eu a absorvi como refúgio e cura. uma flor. apenas uma flor.