Dentro de nós éramos muitos
Mais uma vez dedico um espaço neste blog para Rosa Montero. Merecido, pois foi ela quem me tirou do hiato quase sem fim entre minha última leitura e a atual, a dela. Depois de passar os primeiros meses do ano mergulhada nos estudos — daqueles que não nos deixam tempo nem para respirar —, iniciei a leitura de O perigo de estar lúcida. Bem oportuno, diga-se de passagem.
No livro, a escritora nos apresenta uma riquíssima pesquisa sobre vários artistas. As curiosidades são diversas, e a maioria, bem dolorida. Ao trazer todas as angústias à tona, Montero busca discutir sobre como muitas vezes a loucura é utilizada como matéria-prima ou estímulo para a criação. É quando o desequilíbrio mental aporta que a criatividade ganha todo o seu potencial.
É dificílimo discordar dessa afirmação quando Rosa nos mostra diversos exemplos e relatos de escritores que confirmam que, nos momentos mais sombrios, conseguem produzir com mais fluidez e qualidade. Virginia Woolf e Sylvia Plath estão na lista. Ambas escreveram obras-primas e sofreram na mesma proporção.
Um outro escritor, Héctor Abad, afirma: "Minha fantasia é de que vivo duas vidas: essa que estou vivendo [...] e a outra que vou imaginando, que não é passado nem futuro, mas um presente distinto. A vida que escrevo". Saber lidar com a multidão que nos habita é o grande desafio, e imagino que, para Woolf e Plath, isso, somado a outras questões, tenha penalizado suas mentes e espíritos, tornando a carga insustentável.
Foi com essa leiturinha leve que voltei aos livros. Mas preciso confessar: sempre que livros provocam inquietação e desconforto sinto que consigo tirar algo deles e refletir mais sobre o que leio. Geralmente são também os que costumam permanecer vivos na memória. A escolha não poderia ter sido mais acertada.