Autorretratos

    As narrativas de si foram objetos de pesquisa durante boa parte da minha graduação em Letras. Autobiografias, memórias, diários, relatos de viagem, narrativas autoficcionais. Tudo virava matéria de discussão e estudo, um estudo autocentrado do autor ou de um duplo que se fazia passado. Bom, eu amava e me interessava por essa temática como deveria, até porque tinha ao meu lado a melhor professora de literatura, que também era uma grande incentivadora. Uma inspiração para muitos. 

    No entanto, o burnout acadêmico a que tudo isso me levou no final do curso fez com que eu me afastasse um pouco da pesquisa. Continuava amando, mas precisava me distanciar. 

    Recentemente, enquanto procurava imagens para utilizar como proteção de tela do celular, me deparei com algumas obras de autorretrato ou que mostravam os artistas enquanto produziam seus quadros. Como os quadros estão, muitas vezes, assinados por eles, consideramos também autorretratos, claro. Isso já foi o suficiente pra ativar a memória da faculdade — a parte boa. Sorri e me dei conta de que estes são meu tipo preferido de arte. Aliás, já viram os autorretratos da Tarsila do Amaral? Ela tem alguns, mas apresento abaixo um dos que mais gosto.


Tarsila do Amaral. Autorretrato I², 1924. Óleo sobre cartão sobre placa de madeira aglomerada, 41 x 37 cm. 
Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

Fonte: Site Tarsila do Amaral. ©Tarsila do Amaral Licenciamento e Empreendimentos Ltda.



    É bem suave, mas, ao mesmo tempo, mostra muito. Embora a pintura carregue traços aristocráticos da artista e elementos da arte europeia da época, para mim, o olhar e o foco dado ao rosto de Tarsila comunicam um desejo de deixar expostas suas emoções; e é como se os elementos citados anteriormente servissem para, talvez, disfarçar essa expressão facial mais taciturna. Contraditória como toda boa artista sabe ser.